Comunidade

Um sonho de criança é uma solução para os adultos. Ao falar da comunidade, eu tenho que me reportar à minha lembrança de como era incrível o meu clubinho do bairro, o meu time. Nós nos juntávamos para fazer o grupinho da maior fogueira de São João, trabalhávamos com afinco, construíamos nosso próprio campinho de futebol. Era uma alegria tão grande estar juntos! Nós brigávamos, ficávamos emburrados, mas nos amávamos. Era incrível, era uma energia tão grande que a cada pouco nos estávamos inventando uma coisa nova pra fazer. Tentamos piscinas, juntamos vidros, fios de cobre para fazer a camisa do time de futebol, mas acima de tudo nos estávamos juntos e esse era o grande diferencial da infância. Na vida adulta tudo isso para, para toda essa criação, essa alegria, o estar junto. Aí dá uma inconformação com o tipo de vida, com o tipo de sociedade, com a frieza das relações do cada um por si e deus por todos. Acabamos juntando muitos inconformados com essa vida tão fria e insensível, com a falta de amizade, com a falta de calor humano. Não queríamos desperdiçar nossa vida em apartamentos ouvindo barulho de trânsito, bêbados na madrugada, televisão, cachorro latindo. Sorry, não nascemos para isso, não nascemos para o asfalto, não nascemos para o cinza. Aí já éramos um grupo de amigos que sempre teve esse sonho de morar num lugar na natureza, poder meditar, jogar nosso futebol junto, fazer uma sauna, conversar, exercer de fato a nossa humanidade. Em 1991, demos o primeiro passo e compramos um sítio no Cantagalo. Aí nós vimos que não era bem assim construir uma comunidade, como administrar os conflitos, os interesses e a própria loucura que nós trazíamos da cidade, a loucura de estarmos isolados, fechados, sem sentir o outro. A cada tentativa isso parecia se transformar em barreiras intransponíveis. Após 13 anos, nós conseguimos dar um passo efetivo para a construção da comunidade. E até que enfim nasceu a comunidade Osho Rachana. Nasceu não, brotou. A semente já estava plantada e foi linda, incrível, fantástica e extremamente difícil essa construção. Vivemos momentos memoráveis e inesquecíveis. A vibração de quando chegava alguém, a alegria quando algo bonito era criado, a dor e a tristeza quando alguém partia. Você não imagina a dor que era quando alguém partia. Um processo tão rico e tão dinâmico que a cada ano esta comunidade vai se reinventando, caindo em vícios, criando o novo, buscando novas formas, dando novos passos e o que temos notado é um profundo crescimento e uma consolidação dessa comunidade. Nós temos absoluta certeza que essa é uma das formas mais ricas para viver para realmente sermos seres humanos. Quase todos nós trabalhamos na cidade, andamos 36km por dia pra ir e 36 km pra voltar, mas vale muito à pena, vale muito. Esses 45 minutos são ricos em compartilhamento das nossas vidas, em toques pras ouras pessoas porque dificilmente a gente vai e volta sozinhos. Existe um compartilhamento de caronas, é um momento de compartilhar pra depois chegar em casa e fazer uma sauna, ver filme com os amigos, meditar. Uma convivência incrível, nosso futebolzinho de domingo, nossa brincadeiras no café da manhã, no almoço e na janta. Uma sessão de bioenergética, as crianças explorando esse paraíso, a nossa comida orgânica e muito amor, muita tesão, muita alegria. Realmente é um privilégio poder viver aqui – aliás, não é um privilégio, é um direito de cada ser humano estar no meio dessa gente que ama, que cresce, que vive de alma nua.

 

Prem Milan