Como transar?

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Adolescência, vinte e poucos anos, trinta e por aí em diante. Nesse tempo todo, quantas vezes foi possível falar sobre sexualidade com amigas e amigos num jogo aberto? Falar de dúvidas, curiosidades, medos? Quase ninguém passa por essa experiência. E, por isso, tanta gente adulta continua se fazendo perguntas como essas: como ‘transar bem?’ ou, até mesmo, ‘como transar?’. A internet virou o refúgio das maiores doideiras que ninguém tem coragem de falar. A gente pode pagar de libertário, de politicamente correto, de careta convencional, de descolado para vários assuntos. Aí, na solidão, sem ninguém com quem ter uma conversa franca, o que resta é digitar no Google: “como transar?”. Será que você realmente vai encontrar suas respostas?

Uma pergunta muito antiga

Na minha adolescência, morria de vergonha de ser virgem. Por um lado, andava com uma galera que já bebia, se drogava e pagava de descolada. Por outro, corria todo tempo essa pergunta sobre “como transar” e como seria. Tinha medo de ficar com alguém e “me dar mal”. Lembro que a sensação era essa, mesmo que eu não soubesse muito bem entender todo aquele medo. Ficava com um cara dez anos mais velho, era muito afim dele e não tinha coragem de transar nem para ser puta, nem para parecer uma “santa” que não sabia como transar, nem o que estava fazendo.

Foi tanto assim que, entre os 16 e 17 anos, decidi que iria encontrar um cara totalmente desconhecido. Decidi que pagaria algum garoto de programa mais velho, assim que mudasse de cidade, para perder a virgindade com alguém que eu nunca mais precisasse ver e que, sendo pago, poderia, talvez, me ensinar algumas coisas sem me incomodar. Só de pensar em como transar, eu já sentia todos meus medos, minhas dúvidas, muitos julgamentos e questões – e não me sentia à vontade com absolutamente ninguém para trocar sobre isso.

Fui morar em outra cidade e aquela ideia vinha fixa durante alguns meses. Logo depois, quando saí de lá, tive a “sorte” de conhecer um cara muito legal. Passamos o carnaval juntos em outro lugar e logo voltei para visitá-lo. Estava na casa de uma grande amiga – no mesmo prédio que o dele. Num daqueles dias, resolvi que iria para a sua casa sem nem saber “como transar”. E só transaria. E foi isso que eu fiz. Sem contar nada para ele, sem trocar qualquer ideia com ninguém. Sem compartilhar com a minha grande amiga que estava ali comigo – naquele momento eu já não queria conversar nem comigo mesma… -. Só fui. Sabe o que é pior? O cara era muito legal. Lembro de ele ser carinhoso e cuidadoso comigo porque aquele era para ser um encontro legal e ele também estava afim. Lembro de ele perguntar se eu estava bem, se tinha alguma coisa pegando comigo… e eu ali, totalmente focada em fazer a acabar com aquilo. Minha primeira transa foi assim: sem saber como transar, descobrindo coisas e guardando dentro, sentindo um pouco de prazer e muito de tensão e medo. E um peso imenso de alguma coisa que era errada, estranha, que não se compartilha com ninguém.

Quando acabou, dei uma desculpa e desci correndo para o apartamento daquela amiga. Cheguei quieta, tomei banho, inventei que estava com sono e fiquei horas em silêncio, deitada, pensando sobre o que aconteceu. Eu me sentia leve e sozinha. Na minha cabeça, era como se eu já pudesse falar com as pessoas como alguém que viveu alguma coisa. E eu não tinha vivido nada…

O mais dolorido dessa história é que aquela poderia ter sido uma experiência legal – e só não foi porque em algum momento da minha vida comecei a aprender que sexo era uma coisa feia e suja demais para ser conversada e vivida com naturalidade. Eu guardei e acumulei tensões, julgamentos e medo demais para conseguir ter um encontro relaxado com alguém. Eu precisava “saber” alguma coisa. Saber “como transar”. Precisava não parecer vulnerável, nem ingênua, nem puta. Era um cálculo estranho e difícil demais pra resolver sozinha e que rodava o tempo todo por trás.


Sem ir mais fundo, a gente nunca vai saber

Demorei um tempo para contar que tinha perdido a virgindade – e lembro de fazer questão de falar, quando me perguntaram, como se fosse uma coisa meio óbvia, tipo “um claro que já transei”. Só não devo ter digitado “como transar” na internet porque talvez os sites de busca não fossem tão conhecidos assim. Foram anos de questões internas que só foram mudando a cara. Depois que a virgindade já não era uma questão, eu já estava casada e ainda não tinha coragem de conversar com meu companheiro o que eu curtia e o que não curtia no sexo. De dizer as coisas que eu gostaria de experimentar, que eu achava que ele poderia fazer de outro jeito – e que seria legal para ele também, numa boa. A gente foi se limitando, trocando só entre o que a gente conhecia – e era tão pouco…

Repeti isso muitas vezes. Com outros caras, não trocava nada à respeito de sexo. Com amigas, conversava muito pouco sobre o que era bom, bacana, o quanto sentia prazer ou não. Topava uns encontros pobres demais porque o tabu imperou tempo demais na minha vida – e nos meus encontros com outras pessoas, na minha sexualidade. Por mais descolada e longe que eu quisesse ir, dentro eu carregava as mesmas referências: sexo é feio, é tabu, é coisa de puta, é estranho, é distante demais. A gente vai mudando a cara por fora, mas, dentro, é tudo medo, repressão, dúvida.

Então, como transar?

Quando li que tem gente, talvez como você, que ainda pesquisa sobre “o que é transar”, “como transar” ou “o que é transar bem”, na real, me doeu. Porque tá errado. Tá muito errado carregar tanto silêncio. Sexualidade é uma parte natural, necessária e saudável da vida. Ter prazer, gozar, sentir o corpo, trocar com outra pessoa… isso é humano demais pra gente ter de descobrir diante de uma tela de computador!

Se tem uma coisa que eu aprendi – e sigo aprendendo – é que sexo é uma porta de entrada. Pra várias coisas… pra gente conhecer experiências de prazer, de amor, de troca, de amizade. Se aproximar, conhecer a gente mesmo. Diante de uma porta, a gente sempre tem muito o que descobrir. Ninguém é obrigado a cumprir expectativa de ninguém, de cumprir papel de saber nada. O que a gente precisa é resgatar um caminho natural do corpo: sexualidade é viva e saudável quando é vivida, quando é gozada. Quando é compartilhada. Quando a gente expressa e joga fora tanto tabu e tensão em cima dela.


Encontrando respostas reais

Quer uma resposta real para ‘como transar’? Te abre para compartilhar com outras pessoas, para trocar a respeito, para lidar com teus medos. Para aceitar tua energia sexual, os teus desejos. Para lidar com todas essas emoções que a gente reprime a vida toda e que minam a nossa energia para a vida. O teu valor como uma mulher que pode ter tesão, vontade e liberdade. Faz terapia, medita, conversa com amigos de verdade. Cria as ferramentas para quebrar essa roda careta e repressora da tua própria vida… se elas existem? Claro. E aceita o que vem com naturalidade.

Ninguém é obrigado a cumprir expectativa de ninguém, de cumprir papel de saber nada. O que a gente precisa é resgatar um caminho natural do corpo: sexo é selvagem, é essencial, é natural. E não tem nada mais bonito do que se abrir pra poder gozar, sentir prazer, não saber… e topar ir fundo para descobrir!

 Por Subali

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