Educação e Comunidade

Tempo de leitura: 9 minutos

Por Naveen

Neste ano, completo 4 anos como educador na Comunidade Osho Rachana. Pensar sobre como todo esse processo aconteceu, mexe muito comigo porque tudo ocorreu  de forma tão rápida e inesperada. Desde os tempos do ensino médio eu sentia vontade de trabalhar com educação. Eu assistia às aulas dos meus professores de geografia e história e me sentia inspirado por eles. Me sentia compreendido ao compreender o mundo através dos olhares dessas disciplinas. Saía das aulas do pré-vestibular com o desejo de despertar isso em outras pessoas como eu. A partir daí, tomei a decisão de me tornar professor de Geografia.

Entrei na universidade. No início eram as mil maravilhas, estudava muito, participava do movimento estudantil e me sentia completamente apaixonado pela Geografia, mas os relatos dos meus amigos que já estavam em sala de aula eram terríveis. Todos os dias eles me contavam histórias horríveis das experiências deles em sala de aula. Salários baixos, crianças extremamente violentas, pais ausentes que transferem a responsabilidade de seus cuidados para a escola, a falência total do sistema educacional. Enfim, problemas que já estamos carecas de conhecer.

Tudo isso me desmotivou muito para seguir adiante com meu sonho. Desisti da educação. Fui seguir carreira de Geógrafo porque achava mais seguro e respeitável. Igualmente me dei mal porque no momento que eu me deixei ser tomado pelo medo, acabei perdendo boa parte da minha vida com trabalhos que não me davam nenhum prazer e não me davam nenhum sentido de vida.

Só quando vim morar na Comunidade que eu fui me dar conta de que eu estava traindo a mim mesmo por não escutar meu coração. Quando vim morar aqui havia no sítio poucas crianças. Rishi  e Alice e os ainda bem pequeninos: Felipão e Amandinha. Através do convívio com eles fui percebendo em mim uma empatia natural com as crianças. Era muito fácil estar com elas, ter um diálogo, acessá-las em seu mundo.

Outras crianças foram nascendo frutos do amor dos membros da comunidade e com isso criou-se uma  demanda por parte delas para que a comunidade, que havia sido criada para o universo dos adultos,  também começasse a incluir elas em sua rotina. Foi daí que percebi que havia a necessidade de se criar algo para as crianças, algum projeto que pudesse pensar , criar espaços e momentos ricos para que elas pudessem se desenvolver da forma mais natural o possível, integrando-as aos nossos valores, a nossa forma de vida.

Mais ou menos nessa época, a Pavita fez contato e trouxe para o sítio a Ana Thomaz, que fazia um trabalho de “desescolarização” com os filhos dela. Essa troca com a Ana, me abriu a cabeça para as diversas alternativas que poderíamos buscar para criar a nossa própria visão de educação. Comecei então a pesquisar e visitar diversas escolas e comunidades que estavam de certa forma, incorporando essas visões alternativas as suas pedagogias. Os livros “A Nova Criança” e o “Livro das Crianças” do Osho também serviram de norte para começar a desenhar a nossa própria pedagogia.

Mesmo tendo estudado, pesquisado e vivenciado vários métodos, principalmente aqueles que dialogam com um processo de aprendizagem mais livre e ativo, é difícil para mim falar sobre a pedagogia que estamos desenvolvendo na comunidade. Não adotamos aqui um método específico para educar nossas crianças. Na verdade, toda vez que pensamos em fazer isso, acabamos por ter a sensação de que estávamos criando algo falso, nada a ver com a gente.

O objetivo que nos norteia com relação à educação de nossas crianças é a de que elas possam se desenvolver da forma mais natural o possível, aproveitando o que há de melhor na troca com o meio ambiente e com os membros de nossa comunidade.

Por várias vezes me preocupei em elaborar projetos pedagógicos preocupados com o desenvolvimento artístico, corporal e emocional deles, mas na maioria das vezes me deparei na verdade é com uma necessidade minha de ter algo para ensinar a eles e o que eu tinha para ensiná-los não necessariamente era aquilo que eles precisavam ou queriam.

Tinha preocupação em ensinar brincadeiras, músicas, construção de brinquedos, artes plásticas e sigo fazendo isso, mas na realidade o que eu sinto  que eles aproveitam mesmo, são mais os momentos de troca em que os adultos oferecem para eles aquilo que eles têm de mais incrível para dar: seu afeto e seu amor pelas coisas que fazem. Se um de nós adultos está com as crianças, mas está tentando fazer algo que vem “da cabeça”, isso não contagia eles. Se estamos sem saco e começamos a empurrar coisas para “ocupar” o tempo delas, como filmes por exemplo, logo se vê que elas não estão realmente preenchidas. É um preenchimento superficial, se comparado com colher morangos na hora, pescar peixes no lago, subir em árvores e fazer trilhas fantásticas no bosque.

É impressionante a liberdade que elas têm em dizer aquilo que elas pensam não só entre elas, mas também para os adultos. Não tratamos elas de forma “infantilóide”. Reconhecemos nelas, indivíduos que possuem todas as habilidades para se desenvolver de forma autônoma e autêntica. Em várias rodas de compartilhar, elas são estimuladas a dizer aquilo que pensam, o que estão sentindo, expor suas dificuldades. Cada um tem a liberdade de dizer o que quiser, da mesma forma, trabalhamos a escuta, o olho-no-olho para que o sentido de responsabilidade sobre si próprio e o cuidado com o outro prevaleçam sobre as máscaras sociais criadas para “agradar”, para escamotear as tenções, raivas e frustrações que lá na frente se tornarão repressões e tensões manifestas em suas personalidades.

Prezamos muito por criar uma alternativa a um mundo louco, onde a tecnologia desumaniza os indivíduos, onde o consumir “coisifica” as relações sociais que estão cada vez mais baseadas na competição de quem possui e acumula mais. Aqui você não verá crianças desconectando-se de si e da natureza através de joguinhos e videos de celulares, Ipads e etc. Aqui você encontrará crianças correndo, jogando bola, subindo em árvores, trabalhando junto com os adultos.

Isso tudo só é possível porque prezamos por uma vida em comunidade. Essa vida é uma alternativa à estrutura neurótica familiar. Não é possível que creiamos que seja saudável para uma criança, que ela cresça em um cubículo na cidade, tendo apenas seus pais e irmãos como referência. Isso não pode ser saudável. Antigamente ainda havia a rua, as vilas, o bairro onde a criança podia tecer uma rede de relações mais rica e diversificada. Hoje, as crianças não saem de casa. No muito, vão para o play acompanhada de suas babás, ou ficam em casa vendo televisão sob os cuidados de uma empregada com pais cada vez mais ausentes. Para compensar, começam a colocar as crianças em mil atividades paralelas à escola para ocupar o tempo delas sem nem ao menos perceber se estão realmente felizes em fazer aquela atividade de verdade.

Em comunidade, a criança tem oportunidade de criar outras referências de homens e mulheres. Ela multiplica suas possibilidades de aprendizado através do convívio com as diferenças. Isso dilui muito o peso das relações familiares porque a criança se sente amada por várias pessoas, ela não tem o compromisso e a culpa de ter que atender às expectativas amorosas de seus pais. Elas aprendem que existe todo um universo para além família.

Para se viver em uma comunidade como a nossa, você tem que se envolver e crescer através da cooperação e da colaboração mútua. Isso faz com que as crianças criem também esses valores dentro de si, porque elas fazem parte dessa construção, seja trabalhando junto com os adultos, se envolvendo nos mutirões e nos preparos das festas e eventos.

Outro fator muito importante é o fato de nossa comunidade ser uma comunidade de buscadores que escolheram a Meditação e a Bionenergética como ferramentas para seu desenvolvimento pessoal. A criança que cresce nesse ambiente cria também referências sobre a importância de se autoconhecer. É lindo ver como elas brincam de meditar. Parece que faz parte já da sua rotina. Nota-se, até mesmo , vindo delas um grau de consciência incrível sobre as coisas que acontecem ao seu redor, principalmente,  por elas crescerem em um ambiente onde se valoriza a consciência. Elas têm várias tiradas e sacadas que deixam muitos adultos surpresos com seus feedbacks.

Fico só imaginando a diferença que farão nossas crianças em um mundo ameaçado por vários retrocessos na maneira de relacionarmos enquanto seres humanos. Com toda essa bagagem que elas carregam, quais serão as contribuições que elas trarão para esse mundo? Não gosto de colocar expectativas, porque afinal de contas, expectativas são sempre projeções dos medos e carências dos adultos, mas uma coisa é certa…a quantidade de amor que elas emanam naturalmente, hoje, já é urânio enriquecido o suficiente para gerar uma fusão nuclear de transformações para um presente mais amoroso. Um presente, presente no meu coração.

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