Em busca de um verdadeiro Rebelde

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Sabe aquele moleque meio nerd, meio grunge que ficava isolado com cara de puto no canto da sala de aula fazendo tudo que é tipo de pergunta para desafiar os professores, levava o manifesto comunista para a sala de aula só para incomodar e que tratava todo mundo como se fossem uns alienados? Esse moleque era eu.

Me lembro de andar de skate pela cidade achando que tudo era uma merda. Olhava igrejas, escolas, delegacias e só pensava em como colocar bombas nesses lugares e mandá-los para o espaço. Como muitas vezes eu tinha que passar quase duas horas atravessando a ponte Rio-Niterói, eu tirava esse tempo para pensar em estratégias de como fazer atentados terroristas para bloquear as principais vias da cidade e causar o caos. Olhava aquelas plataformas de petróleo da Petrobras atracadas no estaleiro Mauá e ficava pensando em como ir de barco até lá e implantar explosivos destruindo uma das principais fontes de renda do Estado.

Era o típico rebelde sem causa que passava o dia inteiro escutando hardcore , usava roupas rasgadas e lia livros anarquistas delirando sobre ações diretas e desobediência civil. Achava que todo mundo que não compactuava comigo uns bostas alienados conformados pelo sistema. Me faz até lembrar de uma música que eu escutava muito de uma banda de SP chamada Blind Pigs….”você é o idiota que não vê o seu país indo para o inferno”.

Que hipocrisia! Na real eu era apenas um adolescente de classe média sem referencial nenhuma de pai ou mãe, que se sentia um cú, não tinha o menor jeito para fazer amigos e que se cagava um monte de chegar nas meninas da minha turma.

Minha família só foi me dar alguma atenção depois que viram que eu estava chegando cada vez mais tarde em casa, chapado e bêbado. Às vezes sumia e não dava explicação e só aparecia um ou dois dias depois…daí de tanto dar trabalho, minha mãe me deu um livro do Osho. Lembro-me até hoje: “O Rebelde”. Esse livro quebrou minha cabeça, porque aquele guru indiano muito louco falava sobre a diferença entre o revoltado e o rebelde. Ele ao mesmo tempo em que criticava tudo aquilo que eu também mais odiava na sociedade, oferecia algo que nenhum outro pensador oferecia… Uma alternativa construtiva que dizia muito mais respeito a uma mudança interna minha, do que uma pretensa mudança de todo o sistema. Ele basicamente dizia no livro que quebrar o sistema por dentro do sistema, mudando a si próprio primeiro era muito mais eficaz do que fazer o papel de antagonista de tudo. Esse papel de revoltado também é incorporado pelo próprio sistema, dizia ele! Todos os meus heróis se esvaíram água abaixo depois que li esse livro. Mesmo assim, precisei me estragar mais um pouco até compreender o real significado de toda aquela mensagem…

Depois de ter sido reprovado no vestibular 3 vezes, estar ganhando um salário miserável num ritmo de trabalho insano em uma locadora de DVDS;  depois de ter tido vários relacionamentos amorosos frustrados pela superficialidade típica dos casais caretas, fui me dar conta de que precisava de algo mais na minha vida. Minha brilhante solução? Encaretar valendo! Entrei na faculdade, onde de anarquista passei a estagiário de multinacional. Tive um namoro bem morno, apimentado por casos extraconjugais aqui e ali. Saí de casa e montei um apartamento bem decoradinho e bem localizado na maravilhosa e insípida zona sul do Rio de Janeiro. Praticava Jiu-jitsu diariamente para ficar “saudável”.  Uau! Que maravilha….O que eu ganhei com isso? Muitos kgs a mais, um aspecto depressivo e um sentimento de solidão abismal!

Demorou mais um tempo até eu ver que nenhum dos dois caminhos na real eram caminhos que vinham do coração, mas sim, da repressão da minha raiva que ora me botava na posição ilusória de revoltado-contra-o-sistema-crítico-de-tudo-que-existe, ora de conformado-reformado-experando-reconhecimento-de-mamãe. O fato é que seguia infeliz até me defrontar com algo muito mais real e plausível e que me deixava cada vez mais distante da felicidade: meu ego.

Estive no Namastê do Rio pela primeira vez depois que meu padrasto teve que me botar no banho porque eu tinha chegado em casa muito louco de uma noitada cheia de álcool, maconha e ecstasy. Ele já fazia Bioenergética e praticava as meditações do Osho no Namastê e depois de me ver naquele estado deplorável,no dia seguinte, me convidou e eu fui. Experimentei primeiro a meditação Kundalini e logo depois fiz uma experimental de bioenergética. Essas experiências viriam a mudar a minha vida para sempre.

Aos poucos meu próprio corpo foi me mostrando que o buraco era mais embaixo. Comecei a lembrar de várias situações da minha infância que me causavam muita dor, mas parecia que cada lembrança “escondida” me revelava quem eu realmente era e porque eu continuava a me colocar em situações doloridas como a da minha infância, seja no trabalho, com as namoradas ou com a minha própria família.

Ao mesmo tempo que acessava essas emoções, assim que eu tomava consciência delas, sentia que tinha mais espaço livre para de fato viver de uma forma diferente. Me relacionar com as pessoas de forma diferente, ter prazer de forma diferente, ter diferentes amigos, sair da casa da minha família, e questionar o rumo profissional que eu tava tomando.

Depois que eu fiz o Pai e Mãe, que é o processo terapêutico mais intenso do Namastê, diante de tantas verdades que o trabalho me mostrou, eu tive que escolher: ou eu mudava de vida, ou continuava vivendo a miséria que eu vivi a vida inteira. Acho que esse foi o momento mais revolucionário da minha vida! Daí por diante tudo mudou…

A partir daí tive que tomar decisões e vi que na o que mais fazemos nessa vida é evitar decisões para não encarar as dores dos erros e dos fracassos, mas em compensação, deixamos de crescer e aproveitar nosso potencial.

A primeira grande decisão foi ter me mudado do Rio de Janeiro onde vivia o sonho da cidade maravilhosa e me mudei para a Comunidade Osho Rachana em Viamão, RS. Na comunidade tive que desconstruir toda uma mentalidade individualista para poder realmente aprender o que é  viver no coletivo. Tive e ainda estou aprendendo a ir até o fim com as coisas que faço e acredito, sem cair naquele jogo de culpa do dito pelo não dito típicos da sociedade, onde tudo fica sublimado pela culpa. É a verdade em forma de feedback no talo, seja ele positivo ou negativo sem rodeio, sem hipocrisia. Acertou, beleza; Errou, pede desculpas e muda.

Trabalho conjunto e o viver pela causa de uma vida alternativa ao sistema, isso é viver na comunidade. Depois de dois anos que me dei conta de que estava vivendo aquele sonho anarquista que eu passei a julgar utópico e que todos os meus amigos que se dizem anarquistas, nunca nem passaram perto de viver algo parecido.

Não foi só a mudança de cidade e estilo de vida. Logo depois o meu trabalho deixou de fazer sentido para mim. Na época eu estava trabalhando como geógrafo processando dados de navegação para GPS tipo Google maps. Imagine um trabalho chato, repetitivo e desgastante. Pois é, você não chegou nem perto. Aquela multinacional me sugava de uma tal maneira que  eu passava boa parte do meu tempo tentando descansar das horas trabalhadas. Isso contrastava muito com a realidade da comunidade e ficava muito visível sempre que  voltava para casa. Todos ali vivendo intensamente e eu exaurido. Só conseguia aproveitar os finais de semana, rezando sempre para sexta-feira chegar.

Não pude suportar mais aquela rotina e tive que concentrar meus esforços para reconectar me com algo que acendesse uma chama novamente em meu coração. Após meditar e me trabalhar muito na terapia, percebi que algo estava muito mal resolvido no meu caminho como educador. Não fui até o fim com o meu desejo de ensinar e tive que tomar a decisão de ir abandonando minha carreira como geógrafo. Sabia também que não queria seguir um caminho tradicional na educação. Tomei um rumo completamente diferente e acabei me tornando educador das crianças da comunidade. Desenvolvi um projeto baseado numa educação mais livre e ativa onde as crianças pudessem se apropriar mais do universo da comuna.

Logo depois ajudei a fundar uma pré-escola na zona rural de Porto Alegre inspirada na pedagogia verde e na pedagogia de projetos e criei um programa de ensino de meditação ativa  para crianças. Acredito que esse rumo que tomei em minha vida foi realmente revolucionário porque isso tudo, fiz por fora do sistema, contando só com a parceria dos pais e amigos próximos sem fazer parte de um sistema escolar que doutrina as crianças a perpetuarem as estruturas podres desta sociedade em que vivemos.

Ainda hoje busco renovar essa vontade revolucionária que bate em meu coração e recentemente comecei a atuar como terapeuta de bioenergética no grupo Flor de Lótus do Namastê. Agora sinto que posso ajudar outras pessoas a seguir o caminho do autoconhecimento abrindo espaço para que elas se sintam mais livres para buscar mais prazer, desreprimindo suas emoções e se empoderando mais para fazer as mudanças necessárias em suas vidas.

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