Sexualidade e maturidade

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Em julho completo 48 anos. Sinto as mudanças em meu corpo, nos meus desejos e na minha sexualidade. Sempre ouvi ou li histórias de mulheres que vão perdendo o desejo sexual à medida que vão chegando perto ou já na menopausa. Claro que essa é uma questão para mim. Como conseguir passar por esta fase sem ser uma tortura. Aceitar amadurecer, sem ficar me comparando com mulheres mais jovens ou querendo ser aquilo que não sou mais. Poder viver a minha sexualidade a partir do que sinto hoje, sem a necessidade de provar nada a ninguém ou esperar validação externa.

Após 17 anos praticando a bioenergética, percebo que tenho uma consciência do meu corpo que me possibilita saber o que preciso, o que gosto e o que não gosto. E arrisco afirmar que sinto muito mais prazer do que há 20 anos, pois me permito deixar a energia fluir em meu corpo. Me sinto muito mais aberta para viver minha sexualidade, ainda me descobrindo, ainda lidando com medos e repressões, mas aceitando e tentando quebrar com as resistências e não mais lutando com elas. Hoje eu busco cada vez mais a unidade entre sexo e coração. Não é um caminho fácil e sem curvas, mas acredito que valha a pena.

Encarando o medo de amar

Acredito que a maturidade pode nos trazer uma qualidade diferente à vida, quando nos permitimos viver o amor, com todas as suas dores e delícias. No livro “Medo da Vida”, o médico-psiquiatra Alexander Lowen, criador dos exercícios da Terapia Bioenergética, afirma que a monotonia da vida é efetivada pela supressão sexual. “É evidente que o sexo não pode ser totalmente suprimido, uma vez que isso acabaria com a atividade reprodutiva. O que se suprime é o lado repentino, explosivo, encantador da sexualidade. No passado, isso era alcançado com um código moral que limitava sua expressividade. Atualmente este código está praticamente desativado pela remoção de todos os limites e barreiras à expressão sexual, mas o fizemos de tal modo que a vida se tornou ainda mais monótona. Explorando comercialmente o sexo, fazendo divulgações vulgares e pornográficas, impedimos o acúmulo da excitação até aquele ponto em que pode ocorrer uma explosão, uma quebra. Nos nossos tempos, o sexo tornou-se uma produção, não uma criação”.

Lowen, assim como outros estudiosos do assunto, defende que o sexo é a mais intensa manifestação do processo vital. Controlando o sexo, controla-se a vida. “Podemos brincar com sexo das maneiras mais sensuais, mas morremos de medo de explodir num orgasmo de júbilo e êxtase”. Essa visão de sexualidade baseia-se nas ideias de Wilhelm Reich que chamava esse medo de “ansiedade do orgasmo”. Ele descrevia o orgasmo como uma convulsão corporal total, vivida como extremamente agradável e satisfatória. Sua função é descarregar toda a excitação excedente ou energia, no orgasmo. Essa descarga deixa a pessoa em estado de completo relaxamento e paz. Reich denominava a capacidade para uma tal descarga de “potência orgástica”, equacionando-a à saúde emocional.

No livro “A Função do Orgasmo”, ele afirma que a saúde psíquica depende da potência orgástica, do ponto até o qual o indivíduo pode entregar-se e pode experimentar o clímax de excitação no ato sexual natural. “No caso da impotência orgástica, de que sofre a esmagadora maioria, ocorre um bloqueio da energia biológica, e esse bloqueio se torna a fonte de ações irracionais. A condição essencial para curar perturbações psíquicas é o restabelecimento da capacidade natural de amar.”

Como se livrar da culpa?

A sexualidade é, com certeza, o fruto proibido em nossa cultura. Praticamente todas as pessoas sofrem de alguma dose de culpa ou vergonha por suas fantasias e sensações sexuais. Com isso, não nos entregamos plenamente ao amor. Segundo Lowen, a liberdade interior corresponde a estar livre da culpa, vergonha e constrangimento. “A liberdade interior manifesta-se na graciosidade do corpo, em sua suavidade e vitalidade.”

Desbloquear o corpo das tensões musculares crônicas possibilita acessarmos novas dimensões do nosso ser. Prem Milan explica no seu livro “Por que você mente e eu acredito?” que podemos ser vistos em três aspectos: o animal, o humano e o espiritual. Como animais, buscamos nossa sobrevivência, o poder, expressamos as emoções vitais, vivemos a sexualidade. “E onde começa nossa humanidade? É justamente no coração, na capacidade de amar, de nos entregar, de nos relacionar, de conectar a sexualidade com o amor, de nos derreter no outro. Do amor, inevitavelmente, somos projetados para o campo espiritual. O coração se abre e há espaço para muito mais. Uma vez nesse estado de preenchimento, começa a transbordar sabedoria, o amor pela vida, pela natureza, pelas pessoas, pelo planeta. Essa é a espiritualidade real.”

Sim, é possível amar na maturidade

Tudo nos leva a acreditar que devemos nos “aposentar” à medida que envelhecemos. Aposentar no sentido de desistir do amor, de ter uma vida ativa sexualmente, de continuar a buscar nos conhecer mais profundamente. “Já vivi muito, agora posso me acomodar”, “isso é para os mais jovens”, “agora vou cuidar dos netos”, etc. etc.  São várias as justificativas para acreditarmos que não precisamos mais viver nossa sexualidade. Mas se eu ceder a esse padrão socialmente aceito, aos meus medos e repressões, estarei perdendo a chance de ir muito mais fundo na minha capacidade de sentir prazer e êxtase, de conhecer o meu corpo e permitir que ele tenha mais vitalidade.

Numa cultura apaixonada pela juventude e decidida a evitar o envelhecimento a todo o custo, Osho chama a atenção para a importância daquilo que significa crescer, em vez de simplesmente envelhecer. Nos lembra que há prazeres que só a maturidade nos permite desfrutar, tanto ao nível da nossa relação com os outros como no que diz respeito à realização do nosso destino. Segundo ele, o verdadeiro sentido da maturidade é atingir a compaixão e a sabedoria.

“A maturidade é um renascimento, um renascimento espiritual. Você nasce novamente, é de novo uma criança. Com olhos jovens, você começa a olhar para a existência. Com amor no coração, tem a experiência da vida. Com silêncio e inocência, penetra o mais íntimo do ser.” Osho

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