Você é homem. E quem te ensinou a transar?

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Nos últimos dias da minha vida tenho refletido muito sobre a minha sexualidade, me questionado bastante sobre o quanto eu sei sobre sexo, onde e como foi que aprendi. Eu não tenho lembranças de alguém ter conversado comigo durante a minha adolescência, de ter uma pessoa que sentasse e me falasse o quanto transar é importante na vida de uma pessoa. Mais que isso até, o quanto transar é uma coisa especial, um momento de troca, amor e carinho que dividimos com outra pessoa.

Em casa, não foi

A relação que eu sempre tive como referência, a dos meus pais, no caso, era uma relação fria. Acho que poucas vezes vi os dois se beijarem na boca, sentarem juntos para namorar, ver um filme, trocar carinho. Quando eu era adolescente, lembro de algumas vezes que fiquei acordado até mais tarde parar na porta do quarto dos meus pais antes de dormir e ficar em silêncio, torcendo para ouvir algum gemido ou qualquer som que me confirmasse que meus pais transavam. Nunca ouvi nada.

Na real, eu achava que meus pais não faziam isso e me questionava do porquê. Eles não gostavam? Não se amavam? Era errado? Feio? Sujo? No fundo a mensagem que eu tinha era essa. Aí eu acabei tendo que ir atrás, de alguma forma tentar descobrir como era ou como deveria ser. 2004, eu com 15 anos, já todo sem graça de perguntar qualquer coisa sobre o assunto pra alguém, afinal, ninguém assumia que não entendia nada.

Informação? Onde?

Como fazia para ter informação? Ia pra internet, discada naquela época, esperar horas o vídeo carregar pra me alimentar de pornografia. Eu me masturbava um monte vendo aquilo e já ia fazendo a minha “escola” pra quando chegasse o momento.

Aí começa toda a distorção da coisa. Certamente a maioria já viu algum vídeo desses em algum momento da vida (ou, assim como eu, em vários momentos). A ideia é sempre a mesma: um cara forte, truculento e duro mandando ver. O pau sempre duro, transando por um bom tempo, aquela expressão de não estar sentindo muita coisa a não ser o dever de satisfazer a mulher. Em outras palavras, comendo ela de todas as maneiras possíveis. A mulher gemendo horrores, mesmo que não estivesse sentindo nada, fazendo cara de estar sentindo muito prazer, apesar da postura de estar ali com um único propósito, servir ao grande garanhão que está com ela.

Para pra pensar: que porra de referência é essa? Essa é a referência que eu tive e que provavelmente tu também (no caso de ser homem né, porque no caso das mulheres eram pouquíssimas que se permitiam assistir a isso sem morrer de culpa). Agora é só fazer as contas, se eu cresci tendo isso como modelo sexual a ser seguido, o que se espera de mim? Mesmo depois, com as namoradas que tive, os encontros mais amorosos, no fundo eu achava que era isso que se espera de um homem. Que quando chegue na cama seja “o cara”.

Como eu ia relaxar e ter um momento de amor, me permitir ficar vulnerável, me entregar e expressar as coisas que sentia se lá no fundo eu tinha essa cobrança absurda e buscava toda a validação que faltava na minha vida através do sexo?


Encontrando as minhas saídas

A saída foi conectar com todos os sentimentos e crenças que ficaram trancados durante esse período da minha vida, de achar que sexo é uma coisa suja, que não tem nada a ver com amor, de achar que o cara tem o dever de satisfazer a mulher, de que meu valor como homem está no meu desempenho na cama, de que devo ser duro e “dar conta do recado” sem considerar nada do que eu estou sentindo. Tive que mexer com essas inseguranças e quebrar com essas ideias todas, que eu e a maioria dos homens, mesmo que não se deem conta, carregam junto.

Afinal de contas, qual homem nunca se pegou preocupado com o seu desempenho durante uma transa? De estar na cama com alguém e se questionar se ela está gostando, se está fazendo da maneira correta, se deve fazer assim ou assado? Cara, MUITAS vezes eu me peguei pensando que se eu fosse o cara na cama aquela mulher ia lembrar de mim nos próximos dias, ia me procurar outras vezes, ia falar para as amigas… era quase como se aquilo fosse uma prova eu tivesse tirado a maior nota da turma! Isso massageava meu ego e me dava a sensação de dever cumprido! Outra coisa é o oposto, quando o cara goza bem rápido ou broxa, vem logo aquele medo, aquela sensação de que nunca mais a mulher vai querer saber de ti, de que ela vai te ridicularizar, falar mal. Eu me sentia um bosta!

Lidar com a própria sexualidade: a vida pede coragem

Entrar nisso tudo foi uma tarefa muito difícil, que me requisitou muita coragem pra me expor, pra falar dessas coisas, me questionar e tentar fazer diferente. Eu tive muita coisa que me ajudou a mudar isso. Amigos que estavam no mesmo caminho, com os quais eu pude conversar sobre o assunto, falar como eu me sentia e ouvir deles que partilhavam de medos e inseguranças muito parecidas (tu certamente lendo esse texto já deve ter se identificado com muita coisa). Isso me ajudou a relaxar, de ver que não estou sozinho e que não sou pior nem melhor que os outros homens, mas que sou eu. Tive várias parceiras que também foram muito legais comigo.

Assim como eu tive essa criação, com essas ideias e conceitos, as mulheres também. Compartilhando com elas fui vendo que na verdade estamos todos no mesmo barco e que só vamos mudar e ter uma sexualidade mais conectada com o coração se nos ajudarmos. Com elas, eu vi que o meu valor não está em um pau duro, que eu tenho muito mais que isso, que elas estavam comigo pela pessoa que eu sou, pelas qualidades que tenho.

Isso foi algo que também fui percebendo (parece mega obvio né, mas a real é que lá no fundo a gente sempre acha que não é bom o suficiente né?) com meus amigos em geral, com as pessoas que eu convivo, com os momentos de criação que tive, onde pude colocar minha capacidade e me experimentar de verdade, buscando o máximo do meu potencial como ser humano.

Por último, a coisa me ajudou muito foi a bioenergética e a meditação ativa. Com elas, eu consegui expressar muitas dessas coisas que falei agora. Chorar as faltas que tive na minha infância, expressar a raiva e o peso de ter que satisfazer as pessoas para me sentir amado e validado, colocar pra fora a distorção que foi criada em cima do sexo, aceitar mais meu corpo e meu prazer… isso tudo foi me dando cada vez mais coragem, que me permitiu conectar cada vez mais com meu coração.

Com isso, eu fui descobrindo outros espaços, outras maneiras de transar e cada vez mais conectando o sexo ao meu coração. Eu pude transar por mais tempo, pude expressar mais o meu amor durante um encontro, pude me derreter mais e pude ter muito mais prazer. Prazer esse que se expandiu pra minha vida, me fez crescer como ser humano, como homem, e que serviu e serve de combustível para as coisas que quero na minha vida, para construir e para seguir amando e transando. Sim, sexo e amor são coisas que andam juntas e que torna a nossa vida muito mais colorida. A real é que não foi essa a mensagem que eu aprendi lá atrás e que tu provavelmente também não. Mas ainda dá tempo de mudar. Nunca é tarde.

Só precisa de coragem pra quebrar com os padrões e com aquela ideia de que homem não deve chorar, de que ser forte é não sentir nada e mesmo que sinta não demonstrar, de que homem deve ser o provedor, dar conta das situações e nunca demonstrar alguma fraqueza, algum medo. Na verdade, ser homem é ser sincero com aquilo que a gente sente, ter a coragem de amar, de transar, de sentir, de se declarar. Aí que está a nossa força e a nossa potência. O tesão serve pra levar a gente até o coração. Esse é o desafio de todo homem.

por Aiman

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